A partir de Estilhaços de Adolfo Luxúria Canibal

Encenação e Dramaturgia: João Garcia Miguel Coaching: Miguel Moreira Texto – a partir de Estilhaços de Adolfo Luxúria Canibal Interpretação: Luís Guerra e Sara de Castro

Cenografia: Mantos e Pedro Santos Adereços: Jorge Sacadura Figurinos: Miguel Moreira Música: Sérgio Martins e Rui Lima Fotografia: Miguel Nicolau Produção Executiva: Marta Vieira

MADE IN EDEN no BANDO

De 7 a 17 de Fevereiro de 2008,
de Quinta a Sábado às 22H,
Domingos às 17H

O Bando, Vale de Barris, Palmela


PROGRAMAÇÃO ESPECIAL aos SÁBADOS!

20H -BICHO, pelo Teatro Útero

21H - Espaço de convívio

22H - MADE IN EDEN


Música a partir das 23H30


dia 9 -MIMICAL KIX ( eletrónica/exprimental)

dia 16 MAGAU (brakebit)











Preços especiais!

Informações: 21 233 68 50

Ensaio geral: 6 de Novembro 2007

Estreia: 7 de Novembro 2007


Em cena: até 2 de Dezembro,

de quarta a domingo às 21h e 30m.


dias 30 de Novembro, 1 e 2 de Dezembro às 16 horas
Local: Teatro da Politécnica, Lisboa
Cenografia: Mantos e Pedro Santos
Música: Sérgio Martins e Rui Lima
Fotografia: Miguel Nicolau
Operação: Miguel Moreira
Produção Executiva: Marta Vieira



Co-Produção: JGM, Útero, O Bando, Casa D’Os Dias da Água e O Espaço do Tempo

Estruturas Financiadas por: Ministério da Cultura / Direcção-Geral das Artes

João Garcia Miguel é artista associado de O Espaço do Tempo e companhia residente da Casa D’Os Dias da Água.



SINOPSE

A velocidade tornou-se uma obsessão. Sinto no entanto os seus efeitos como um desafio, um sabor que se espraia pelo corpo lentamente, como um animal que se espreguiça por dentro de outro animal. Um ocupante desejado e estranho em simultâneo, que se desdobra continuamente e pronuncia um monologo incessante. Vozes soltas à solta dentro de um corpo. Vozes desordem que lutam por uma sombra, por uma parede onde ecoar. Aos poucos outros ocupantes vão perdendo o medo levantam-se dos escombros sacodem o pó e falam a medo primeiro, com alegria depois, a surpresa de estarem vivos a que se sucede o desejo infantil de tudo experimentar, de tudo querer, de tudo destruir. As pedras substituem as palavras e os risos são facas e carícias, cortam e chocam, deixam passar a corrente, golfadas pequenas, pontapés e pelos eriçados. A Guerra começou aonde?
O caminho que se percorre está feito e pode sempre voltar a fazer-se de novo, tantas vezes quantas a memória permitir, até que o próprio caminho se apaga e afinal já não é mais aquele caminho que um dia percorremos. Nesse momento sofremos o peso de uma revelação inesperada que nos atira ao ar e perdemos as imagens mais queridas, aquelas que despertam com um toque na alma, com um toque por debaixo da pele. Perdemos tudo o que tínhamos, perdemos o sangue e a corrente eléctrica que nos anima as noites e nos ilumina o caminho. A Guerra acabou de começar algures, já lhe sinto o tremor!

Criámos um mundo onde as portas só fecham e nunca se podem abrir. É um mundo avariado onde as televisões avariadas e sem sinal descansam ternamente deitadas ao colo de sofás paraplégicos, mutilados de guerra aleijados sem pernas. As pedras voam por cima das nossas cabeças e as portas deixaram de abrir e só se fecham para que quando a desgraça bata à porta esta não possa entrar. Foi um segredo que me ajudou a criar este mundo, um mundo avariado. Um aviso-segredo que soou por dentro de uma televisão esquecida. A Guerra faz com que o braço se separe do corpo e que se escrevam poemas, cartas de amor e que tudo faça sentido?

As coisas começaram no paraíso. Pouco ou nada se fez no paraíso. Das poucas coisas que se fizeram no paraíso a que recordamos melhor e que nos ficou como herança foi a guerra. A guerra começou no paraíso porque lá tudo era redondo. Os quadrados e o amor foram inventados depois, durante as guerras para que possamos passar por cima da vida, pelo meio da vida, por baixo da vida continuar como máquinas sentimentais e sobreviver dentro de caixas fechados com os corpos rodeados de máscaras e palavras. A Guerra destruiu os jardins que tínhamos construído com os nossos olhos?

Made in Éden é o resultado de um trabalho a partir dos textos Epístolas de Guerra de Adolfo Luxúria Canibal que vêm inseridos no seu livro Estilhaços. O resultado é uma heresia. Utilizei o texto como ponto de partida, como uma linha do horizonte que se curva e nos conduz no espaço habitado, como um som que nos guia na imensidão. As palavras quase desapareceram dando lugar a histórias de dois seres que se recriam e se desdobram em várias personagens.
O estilo epistolar dos poemas, que o autor agrupou construindo um corpo de memórias e experiências, criando uma forma de narrativa ao mesmo tempo lacunar e irreal, incentivou o sentido de sermos os destinatários daquelas mesmas epístolas. Este sentir incentivou a procura de criação de uma estrutura que partindo dos assuntos tratados, os prolongasse. O que procurámos foram então imagens que se erigiram dos resíduos e das ruínas que estas epístolas continham e que nós transformámos através da leitura e da nossa tentativa de lhes dar uma forma com a qual pudéssemos partilhar essa experiência.

O processo de transformação que teve várias mecânicas até chegar aos resultados obtidos é um caminho que realizámos em conjunto. Procurei que esse resultado condensasse imagens de uma visão do mundo que é minha e que julgo partilhar em parte com os companheiros de aventura. A escolha de Adolfo Luxúria Canibal não é inocente nisto e deu-nos o eco de um mundo do qual todos sentimos as ondas de choque e com o qual nos encontramos frequentemente em rota de colisão. Mais do que o sonho de um mundo novo o que partilhamos é as ficções de sangue e morte de um mundo velho.

Os poemas começam numa ausência de um jardim, que acabou por ser marcante como imagem para o título que justifica e sublinha a obra e terminam os poemas com uma referência ao momento de consciência dolorosa de que também acabaremos por morrer. É um momento infantil de descoberta que no espectáculo é passado para um registo de ironia e prazer. Após um processo de transformação que conduz à destruição daquilo em que acreditámos e que nos formou levanta-se um instante de revelação de que o que nos resta é entregarmo-nos à vida perdidamente.

Em termos estritamente teatrais procurei criar a partir da noção de que estamos à procura de expor o teatro como um reflexo daquilo que somos e que pensamos. Procurei que o acto de criar uma história, uma fantasia dramática e performativa, fosse em simultâneo um gesto de comunhão onde em conjunto procuramos interrogar os modos como sentimos e pensamos. Não apenas e estritamente em termos individuais mas em colectivo e como esses dois espaços habitados se cruzam. Estamos assim num espaço de ficção onde a imaginação é a nossa matéria-prima e o teatro a ferramenta que utilizamos. Propomos em conjunto com os espectadores interrogarmo-nos acerca do mundo que construímos. O espaço de teatro é em simultâneo oficina, atelier de trabalho e superfície na qual se formam imagens do mundo. Os intérpretes são eles mesmo e extensão de personagens que propomos e onde se reflectem emoções que os espectadores que somos auxiliaram a recriar. É um jogo de uma vida intermediaria na qual acordamos participar na qual acreditamos por momentos estar a viver e a ver acontecer.